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A Piscicultura Poderá Suplantar em Breve a Pecuária como Fonte de Alimento

Por Lester R. Brown*

A produção da aqüicultura, que cresceu a uma taxa de 11 porcento ao ano durante a última década, é o setor de maior desenvolvimento na economia alimentícia mundial. Aumentando de 13 milhões de toneladas de peixes produzidos em 1990, para 31 milhões de toneladas em 1998, a piscicultura está a ponto de ultrapassar a pecuária como fonte de alimentos, até o fim desta década.

Este crescimento recorde da aqüicultura sinaliza uma mudança fundamental em nossa dieta. Durante o último século, o mundo dependeu quase que exclusivamente de dois sistemas naturais – pesqueiros oceânicos e pastagens – para satisfazer a demanda cada vez maior de proteína animal, mas esta era aproxima-se do fim quando ambos os sistemas atingem seus limites produtivos. Entre 1950 e 1990, a produção de carne bovina – quatro quintos de pastagens – quase que triplicou, aumentando de 19 milhões para 53 milhões de toneladas, antes de se estabilizar. Enquanto isto, o pescado oceânico cresceu de 19 milhões para 86 milhões de toneladas, mais que o quádruplo, antes de se estabilizar. Desde 1990, tem havido pouco crescimento, tanto na produção da carne bovina quanto na pesca oceânica.

A produção adicional de carne bovina ou frutos do mar depende hoje de um maior confinamento de gado ou de mais peixes em lagoas. Neste momento, a eficácia com que o gado e o peixe transformam os grãos em proteínas passa a determinar as tendências de produção e, conseqüentemente, nossas dietas. O gado requer cerca de 7 quilos de grãos para 1 quilo de peso vivo, enquanto o peixe pode ganhar um quilo de peso vivo com menos de 2 quilos de grãos. A escassez da água também preocupa, pois são necessárias 1.000 toneladas de água para produzir 1 tonelada de grãos. Entretanto, a vantagem da piscicultura na eficiência da conversão de grãos representa uma vantagem comparativa também na eficiência hídrica, mesmo quando a quantidade relativamente pequena de água para as lagoas de peixe é incluída. Num mundo com escassez de terra e água, a vantagem das lagoas de peixes, em comparação ao confinamento do gado para a produção de proteína animal de baixo custo, é mais do que evidente.

Contrariamente à produção da carne, que se concentra nos países industrializados, cerca de 85 porcento da piscicultura é desenvolvida nos países em desenvolvimento. A China, onde a piscicultura teve início há mais de 3.000 anos, foi responsável por 21 milhões de toneladas das 31 milhões de toneladas da produção da aqüicultura mundial, em 1958. A Índia ocupa um segundo lugar distante, com 2 milhões de toneladas. Outros países em desenvolvimento com setores prósperos de aqüicultura incluem Bangladesh, Indonésia e Tailândia.

Entre os países industrializados, o Japão, Estados Unidos e Noruega são os líderes. A produção do Japão, de 800.000 toneladas, consiste de espécies de alto valor, como mexilhões, ostras e olho-de-boi. A produção dos Estados Unidos, de 450.000 toneladas, compõe-se principalmente de lampreias. Na Noruega, suas 400.000 toneladas são, na maioria, salmões.

Com o incremento da sobrepesca, os países em desenvolvimento estão se voltando à piscicultura para satisfazer seu apetite cada vez maior por frutos do mar devido, em grande parte, ao fato da opção oceânica não ser hoje tão acessível para eles como foi, no passado, para os países industrializados. Por exemplo, à medida que a pressão populacional sobre a terra se intensificou no Japão, ao longo do tempo, este país voltou-se aos oceanos para sua proteína animal, utilizando a pouca terra para cultivar arroz. Hoje, os 125 milhões de habitantes do Japão consomem aproximadamente 10 milhões de toneladas de frutos do mar, a cada ano. Caso os 1,25 bilhões de chineses se alimentassem de frutos do mar no mesmo ritmo, necessitariam de 100 milhões de toneladas – ou seja, todo o pescado mundial.

Embora pelo menos 220 espécies de peixes, moluscos e crustáceos sejam cultivadas comercialmente, cerca de uma dúzia dominam a produção mundial. Entre os peixes, cinco espécies de carpa – todos cultivadas largamente na China – lideram, com uma produção estimada de 11 milhões de toneladas em 1998, mais de um terço da produção da aqüicultura mundial. Entre os moluscos, a ostra japonesa – cerca de 3,4 milhões de toneladas (inclusive a concha) – predomina, seguida do molusco Yesso e do mexilhão azul.

Na China, os peixes são cultivados principalmente em lagoas, lagos, represas e arrozais. Cerca de 5 milhões de hectares de terra são dedicados exclusivamente à piscicultura e em grande parte à policultura da carpa. Além disso, 1,7 milhões de hectares de arrozais são utilizados para a produção conjunta de arroz e peixes.

Ao longo do tempo, a China desenvolveu uma policultura pesqueira, utilizando quatro tipos de carpas que se alimentam em níveis diferentes da cadeia alimentícia. A carpa prateada e a carpa cabeçuda se alimentam de fitoplâncton e zooplâncton, respectivamente. A carpa capim, como seu nome indica, se alimenta principalmente de vegetação, enquanto a carpa comum se alimenta dos detritos, sedimentados no fundo. A maior parte da aqüicultura chinesa está integrada à agricultura, permitindo aos agricultores utilizarem dejetos agrícolas, como esterco de porco, para fertilizar as lagoas, estimulando desta forma o desenvolvimento do plâncton. Esta policultura, que incrementa a produtividade por hectare em pelo menos a metade, em comparação à monocultura, também predomina na aqüicultura da Índia.

À medida que a terra e a água escasseiam, os piscicultores chineses intensificam a produção, através de maior quantidade de concentrados de grãos para elevar a produtividade das lagoas. Entre 1990 e 1996, os agricultores chineses aumentaram a produtividade anual das lagoas, de 2,4 toneladas de peixe para 4,1 toneladas, por hectare.

Nos Estados Unidos, a lampreia, que requer apenas 1,6 quilos de alimento para adquirir 1 quilo de peso vivo, é o produto líder da aqüicultura. Com a produção norte-americana de lampreias no ano passado, de cerca de 270.000 toneladas, ou quase 1 quilo para cada americano, o consumo norte-americano de lampreias excedeu o de carneiro. A produção de lampreia dos Estados Unidos está concentrada em quatro estados: Mississipi, Louisiana, Alabama e Arkansas. O Mississipi, com cerca de 45.000 hectares de lagoas de lampreias e 60 porcento da produção americana, é a capital mundial da lampreia.

Entre as espécies aquáticas amplamente cultivadas, duas particularmente causam o maior estrago ambiental – o salmão, com uma produção de 700.000 toneladas por ano e o camarão, com 1.100.000 toneladas anuais. O salmão é cultivado principalmente nos países industrializados, especialmente na Noruega, para consumo nesses países. O camarão, contrariamente, é cultivado nos países em desenvolvimento, particularmente na Tailândia, Equador e Indonésia, e exportados para as sociedades mais afluentes.

O salmão, um peixe carnívoro, é alimentado basicamente com farelo de anchova, arenque e restos da industrialização do peixe. Num contraste gritante à produção de espécies herbívoras, como a carpa e a lampreia, que aliviam a pressão sobre os pesqueiros oceânicos, a produção do salmão na realidade intensifica a pressão, pois requer até 5 toneladas de pescado para cada tonelada de salmão produzida.

Outra preocupação é que se o salmão, que é cultivado para um crescimento rápido e não para sobreviver à solta, escapar dos cercados em conseqüência de danos por tempestades ou ataques de predadores, como as focas, pode se acasalar com o salmão silvestre, enfraquecendo a capacidade de sobrevivência deste. Os peixes cultivados em gaiolas "offshore" ou cercados, como o salmão, também concentram grandes quantidades de resíduos, o que por si só representa uma problema de manejo.

Por exemplo, os desejos produzidos pelo salmão cultivado na Noruega é aproximadamente igual ao esgoto produzido pelos 4 milhões de habitantes da Noruega.

A produção do camarão freqüentemente requer o desmatamento de manguezais costeiros que protegem os litorais e que servem como viveiros para os peixes locais. A destruição de manguezais pode causar um declínio de pesqueiros locais que, na realidade, superará os ganhos da produção de camarões, levando a uma perda líquida de proteína. Além disto, uma vez que as rações do camarão também são altas em farinha de peixe, o camarão, como o salmão, pressiona ainda mais os pesqueiros oceânicos.

Um mundo que está chegando ao limite em pesqueiros oceânicos e pastagens e, ao mesmo tempo, acrescentando 80 milhões de pessoas a cada ano à sua população, necessita de novas fontes eficientes de proteína animal. As espécies herbívoras de peixe, como carpas cultivadas em policulturas, carpas cultivadas juntamente ao arroz, ou lampreias cultivadas em lagoas, proporcionam uma forma altamente eficiente de expansão do suprimento de proteína animal para um mundo com fome de proteínas. A piscicultura não é uma solução para o problema alimentício mundial porém, como a China demonstrou, proporciona uma fonte potencial de proteína animal de baixo custo para populações de baixa renda. As forças que transformaram a aqüicultura na fonte mundial de proteína animal de maior crescimento durante a última década, provavelmente a tornarão a fonte de crescimento mais acelerado também nesta década.


Lester Brown* é formado em ciências agrícolas com mestrado em economia agrícola e administração pública. Já atuou como analista e assessor de órgãos do governo americano na área de agricultura até fundar o WorldWatch em 1974. É autor de quase duas dezenas de livros, além de revistas e publicações anuais como o State of The Word, editado em várias línguas e que se tornou uma espécie de bíblia do movimento ambiental internacional.

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