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Terça-feira, 10 de abril de 2001

UMA REVOLTA QUE SE TRADUZ EM CRIAÇÃO

Frans Krajcberg completa 80 anos reafirmando sua paixão e luta pela natureza

Reprodução
Kracjberg diz que descobre formas e cores sempre que contempla a natureza

GRAÇA RAMOS
Especial para o Estado

BRASÍLIA - A pequena Nova Viçosa, no sul da Bahia, será palco de um grande encontro afetivo, amanhã e quinta-feira. O artista plástico Frans Krajcberg e o cineasta Walter Salles Jr. decidiram comemorar juntos os aniversários de 80 e 45 anos, respectivamente. Os dois nasceram no dia 12 e, sempre que estão no mesmo país, passam juntos a data. Krajcberg aproveitará a festa para relançar a idéia de criação de uma fundação que preserve o seu acervo.

Mais de cem amigos são esperados para dois dias de passeios pelo Rio Peruíbe, além da visitação às mais de 300 peças que o artista guarda em casa. "Não tenho herdeiros, não quero vender os trabalhos, quero torná-los acessíveis ao grande público", diz Krajcberg. Para isso, comprou faixa de terra próximo à casa que construiu em cima de uma árvore, e onde mora, e prepara-se para construir o próprio museu. Ele quer preservar o acervo que possui de artistas como Braque, Chagall e Klee. Um dos mais caros artistas brasileiros, com obras orçadas entre US$ 20 mil e US$ 200 mil, Krajcberg é conhecido como um dos mais combativos defensores da natureza. "Meu trabalho é expressão da minha revolta", diz.
 
Estado - Há alguns anos, o governo do Espírito Santo elaborou o projeto de um centro de arte destinado a preservar o seu acervo. A idéia foi adiante?
Frans Krajcberg - Não. Não se pode levar a sério as promessas brasileiras. As cidades necessitam de alma, de cultura, mas os governantes se preocupam pouco com isso.
Estado - O que o senhor pretende fazer agora?
Krajcberg - Estou completando 80 anos, tenho consciência do que significa isso. Às vezes, me pergunto: "Como agüentei tanto tempo?" Não tenho herdeiros, só amigos. Quero mostrar ao público meu trabalho. Decidi eu mesmo construir aqui em Nova Viçosa uma casa para preservar meu trabalho. Comprei um pedaço de terra, próximo à estrada que liga Mucuri a Nova Viçosa, distante uns 800 metros de casa. Vou erguer ali o Museu Ecológico Krajcberg e preservar a floresta que o abriga.
Estado - Já tem um projeto arquitetônico pronto?
Krajcberg - Tenho um projeto de Jaime Cuppertino, mas ainda são necessários muitos ajustes.
Estado - Como o senhor imagina a ocupação do espaço?
Krajcberg - Vai ter uma área para os meus trabalhos, outra para trabalhos dos amigos, uma para fotografias, outra para relevos.
Estado - Já tem patrocínio?
Krajcberg - Ainda não. Inscrevi o projeto na lei de incentivo.
Estado - E as obras que estão em Paris?
Krajcberg - Serão entregues para a prefeitura, vão fazer parte do futuro Museu Krajcberg.
Estado - Que obras o senhor deixou ali?
Krajcberg - Deixei muitas coisas realizadas em Paris e Ibiza e também os quadros que ganharam o Prêmio Cidade de Veneza, na Bienal de Veneza de 1964.
Estado - Está preparando alguma exposição para comemorar os 80 anos?
Krajcberg - Não. Uma exposição apenas exposição não me interessa mais. Só me interessa aquilo que tiver um ponto de vista ecológico. Uma exposição que seja um sistema.
Estado - Está produzindo esculturas?
Krajcberg - Faz um tempo que estou praticamente parado. Não tenho produzido quase nada de escultura. Estou bastante cansado, porque não paro de viajar, de me manifestar ecologicamente.
Estado - Quando realiza um trabalho artístico que é também uma forma de denúncia sobre a necessidade de preservação da natureza, o senhor é mais artista ou ecologista?
Krajcberg - Já fui muito criticado. As pessoas me perguntam se o que faço é arte. Na verdade, nunca penso que estou fazendo arte. Essas palavras - arte, artista - não têm muita importância. Sou um homem revoltado que, em vez de gritar pelas ruas, faz trabalhos que expressam indignação.
Estado - O senhor tem se sentido muito revoltado?
Krajcberg - Ontem vi nos telejornais que tem norte-americano vendendo a Amazônia por telefone. Isto não é possível. Daqui a pouco, a floresta vai virar uma mosca no mapa. E o que me impressiona é que a sociedade não se mobiliza para conter essa violência. Parece que o homem só sabe o que significa a natureza quando há desastre.
Estado - O senhor trabalha exclusivamente com material rejeitado pela natureza ou também pega matéria viva?
Krajcberg - Nunca peguei material vivo.
Estado - Algum filósofo influenciou a sua maneira de pensar e trabalhar?
Krajcberg - Não. A vida é que me ensinou. Fui muito marcado por uma passagem da minha existência, quando tudo se transformou (refere-se à perda de toda sua família em um campo de concentração, durante a 2ª Guerra Mundial). Com tudo o que vi e vivenciei, fui formando uma visão da realidade, tive de lutar pela sobrevivência. Precisei aprender a gostar da vida. Como passei a fugir do homem, cheguei mesmo a detestá-lo, me voltei para a natureza e ficava impressionado com essa outra vida que não me pedia nada.
Estado - Foi o contato com a natureza, com a terra, que lhe deu sentido para continuar criando artisticamente?
Krajcberg - Ela é minha família, minha alegria, minha cultura. Dela dependem minha criatividade e minha vida. É minha fonte de observação da vida, porque o homem não preciso mais observar. Às vezes, alguém observa o quanto meu trabalho mudou, então, digo: "Eu achei uma natureza diferente."
Estado - Falando do homem comum, o senhor acredita que é possível viver nesse mundo tão tecnológico e voltar à natureza sem agir de uma maneira tão radical como o senhor fez?
Krajcberg - O homem pode e deve viver em harmonia com a natureza. O planeta seria mais feliz sem a gente, mas nós precisamos desta terra. Temos de deixar esse planeta ter boa saúde, só assim o homem poderá sobreviver. É certo que vivemos uma época de vazio político, mas já se pode observar que há uma consciência, uma preocupação planetária.
Reprodução
Artista utiliza apenas material morto em seus trabalhos
Estado - Em nenhum momento o senhor aproximou-se de grupos e movimentos artísticos e ideológicos?
Krajcberg - Sempre fui independente. Houve uma época em que estive perto do neo-realismo, movimento defendido pelo Pierre Restany. Foi por pouco tempo. Eu considerei muito válidas, do ponto de vista urbano, as experiências do Arman, Cesar e Tinguely. Poderíamos dizer que eles fizeram uma espécie de movimento ecológico urbano importante. Mas eu optei por outra forma de expressão.
Estado - E qual é o seu caminho?
Krajcberg - Meu caminho é o de me interessar e ver a vida fora do homem, sentir mais a beleza das formas naturais, porque a gente ignora as formas e as cores que a natureza tem. Ainda temos muitas possibilidades de nos aproximar e trabalhar com essa natureza. O homem está cada vez mais distante dele mesmo, é preciso aproximá-lo e talvez o trabalho com a natureza ajude nesse reencontro. Todo dia criam uma lei nova para estimular o homem em sua vida urbana. Então, eu acho que o artista pode dar caminhos aproximados para melhorar o século 21, criar alternativas que possibilitem ao homem acompanhar a terceira revolução industrial sem destruição.
Estado - Por que em muitas de suas obras há a preferência pelo preto e o vermelho?
Krajcberg - Bem, primeiro, o vermelho é o fogo, o fogo que queima as florestas. Em segundo lugar, é pigmento natural de Minas Gerais. Mas é bom recordar que tive uma época, nos anos 50, logo que cheguei ao Brasil, que toda a minha pintura era cinzenta. Eu não conseguia colocar cor alguma, a vida era tão cinzenta, estava deprimido e meus trabalhos refletiram isso.
Estado - Há uma metáfora para a cor preta?
Krajcberg - Não é exatamente a cor preta a que uso. Nunca faço preto. Meu preto é manganês, mais ou menos chumbo, algo como chumbo marrom, chumbo cinzento. Às vezes, uma forma ou um pedaço de determinado trabalho não suporta uma cor. Com o preto se vê melhor a forma.
Estado - Antes de começar um trabalho, o senhor define um conceito, pensa no que fazer ou vai simplesmente fazendo?
Krajcberg - Nunca faço projetos antes. Vou observando, sentindo o material até chegar uma hora em que começo a fazer uma forma.
Estado - Suas obras denotam preocupação estética, exibem esforço de composição, beleza trabalhada. Quando as vê concluídas, se sente recriando a natureza?
Krajcberg - Recriar não é o sentido que procuro. Esteticamente, às vezes, é bonito. Mas beleza não é a minha preocupação.
Estado - E o que procura?
Krajcberg - Procuro apenas exprimir minha revolta e encontrar nos trabalhos a forma de expressar isso. Dar forma à violência da minha revolta não é fácil.
Estado - Por que é difícil?
Krajcberg - É difícil porque nem toda forma, nem todo movimento, nem todo material achado serve a esse sentido.
Estado - Qual o trabalho o senhor acha que exprime melhor essa revolta?
Krajcberg - São aqueles que faço com o material que resta da destruição das florestas após o fogo.
Estado - Como seleciona e trabalha esse material?
Krajcberg - Vou para a floresta e me sinto tão queimado quanto as árvores. Começo a andar e escolho os pedaços com os quais posso realizar alguma coisa. Às vezes fico anos e não sei o que fazer com eles, mas chega o momento em que, de repente, eu consigo trabalhar .
Estado - Depois que começa a criar, quanto tempo leva para concluir a obra?
Krajcberg - Às vezes demora muito, às vezes paro, fico um, dois anos, sem tocar no material.
Estado - E o que lhe faz interromper?
Krajcberg - Não sei como continuar, depois de um tempo tenho vontade de prosseguir.
Estado - Qual a importância da fotografia em sua obra?
Krajcberg - Eu não fotografo para fazer esculturas, fotografo para não esquecer o que vi.
Estado - Todo aquele imenso acervo funciona apenas como uma recordação?
Krajcberg - Não; a fotografia é uma arte importante, fundamental, hoje em dia. No meu caso, quando faço fotografias não é só como recordação, quero também mostrar formas ignoradas.
Estado - Como é que o senhor analisa o papel do artista na relação entre natureza e cultura?
Krajcberg - Bem... natureza... natura... O artista tem de observar bem, acompanhar as mudanças do mundo. A natureza é vida e os artistas fazem tudo para acompanhar a evolução do homem e da vida. O artista sempre foi na frente, sempre abriu caminho. Sempre mostrou a agonia do ser humano. Vivemos agora uma época de crises e o artista tem o papel de estar alerta e mostrar como essas mudanças podem afetar a vida. É possível criar um futuro mais justo e equilibrado, desde que o homem não privilegie a sua destruição e a dos recursos naturais.
Estado - Está querendo dizer que os artistas preocupados com a ecologia estão à frente da consciência geral?
Krajcberg - Depende. Se for só copiar a natureza ou apresentar gestos da natureza é algo limitado. É preciso dizer algo. Tenho centenas de trabalhos guardados em casa, não faço questão de vender, porque meu pensamento é apenas o de dar forma ao meu grito.

Otávio Magalhães/AE - 15/3/98

Walter Salles Jr.: festa de aniversário em conjunto
Estado - Verdade? O senhor não se preocupa mais em vender seus trabalhos, faz tudo para não vendê-los.
Krajcberg - Faço.
Estado - Mas o senhor vende para museus...
Krajcberg - Vendo.
Estado - E gosta de ver suas obras inseridas em um museu?
Krajcberg - Não acompanho muito isso, mas vivo do meu trabalho. E, quando vendo para um museu, sei que a minha mensagem está sendo transmitida, apesar de ela não chegar ao público como deveria. Ao estar em um museu, muitas pessoas vão tomar contato com o que quero dizer e, pouco a pouco, a mensagem vai passando.
Estado - O senhor ainda trabalha com galerias?
Krajcberg - Detesto trabalhar com galerias. Não dá certo. Acho que o mercado machuca muito.
Estado - O senhor nasceu na Polônia, no seio de uma família de origem judaica, naturalizou-se brasileiro, mas costuma definir-se como internacionalista. O sr. concorda com o crítico Frederico Moraes, que diz que sua única pátria é a natureza?
Krajcberg - Concordo. Foi a natureza que me deu toda possibilidade de continuar vivendo, trabalhando. Com ela, veio a alegria. Gosto de observá-la, de abraçá-la. No Espírito Santo, perto de Linhares, há uma árvore. É a única árvore que deixaram num certo trecho do que foi a mais rica floresta do planeta. Toda vez que passo lá eu paro e a abraço.
Estado - Nos anos 50, a arte brasileira fez um tremendo esforço de internacionalização. Houve a opção pela abstração, pelo concretismo, distanciando a produção artística das formas orgânicas da natureza. O senhor acredita que isso contribuiu para aumentar a falta de consciência dos brasileiros em relação à natureza?
Krajcberg - Esse momento foi, digamos, a imitação, uma continuação do concretismo da Bauhaus e do Mondrian. Mas em Mondrian tinha tanta árvore...
Estado - O senhor poderia explicar melhor?
Krajcberg - Mondrian estava no lugar certo, no momento certo, era um homem e um artista da segunda revolução industrial. Se Mondrian passou da árvore ao quadrado, ele apenas soube aproveitar uma das infinitas possibilidades da árvore, sendo necessário rever o quadrado para reencontrar a árvore.
Estado - O senhor está querendo dizer que, nos anos 50, os brasileiros não estavam no lugar e momento certos?
Krajcberg - Sim. Eles imitavam a Bauhaus. Não percebiam ou não queriam perceber que o desenho concreto geométrico dos índios brasileiros era muito mais válido do que imitar a Bauhaus. Houve um momento em que a arte neoconcreta foi considerada a arte brasileira, sempre achei isso um absurdo. Por isso, fui detestado pelos concretos e neoconcretos brasileiros. Quando eu observava o desenho de um indígena, um objeto que eles faziam, via que era maravilhoso, então, não podia aceitar a imitação do quadrado. Ninguém queria conhecer aquela realidade, que continuo a ver quando vou à Amazônia.
Estado - O senhor ainda se sente um caso isolado na escultura brasileira?
Krajcberg - A dificuldade é que ainda sou visto como um polonês radicado no Brasil.
Estado - Quando digo caso isolado é em termos de processo artístico, querendo saber se o senhor se considera diferente ou acha que já há outros artistas trabalhando com uma linguagem próxima a sua?
Krajcberg - Agora sou muito procurado. Outro dia, um jovem artista de São Paulo queria saber mais detalhes sobre o uso dos pigmentos naturais. É bom saber que há muitos outros artistas trabalhando com a natureza, que há um movimento de preocupação com a terra e também com a melhoria da qualidade da vida urbana. Estamos entrando no século 21 e estas questões são sempre mais importantes.
 

Divulgação

Krajcberg: "A natureza é minha família, minha cultura. Dela dependem minha criatividade e minha vida."
Estado - O artista nada inventa, a natureza já inventou todas as formas, é isso?
Krajcberg - Na natureza existem todas as formas que se possa imaginar. E tudo é muito mais vivo, é muito mais real. Precisamos acompanhar essa vida. De repente, a gente copiava essa natureza, copiava a beleza da natureza, até na arte do retrato. Hoje em dia, temos que nos aproximar da natureza, sem interferências.
Estado - Quando está trabalhando, como é sua rotina?
Krajcberg - Eu acordo cedo, entre 4h30 e 5 horas. Faço muitas coisas, o dia é muito pequeno, o tempo passa tão depressa que não consigo fazer tudo que queria. No fim do dia, venho para a minha casa na árvore.
Estado - E que tantas atividades são essas?
Krajcberg - Cuido das plantas, trato dos cachorros, das galinhas, pesco meu alimento, vejo com atenção uma fileira de pequenas formigas. Observo a paisagem, de repente, vejo uma cor, posso descobrir um pedaço de madeira, uma textura de árvore que nunca havia visto.
Estado - A solidão é parte importante do seu processo criativo?
Krajcberg - Eu não sinto a solidão quando estou com a natureza. Tudo é tão rico que é possível ver a todo momento a vida crescer. Nela, em todas as partes, a vida começa e se desenvolve.
Estado - Por que uma casa na árvore, construída sobre um pequizeiro de sete metros?
Krajcberg - Bem, tive uma quando morava lá no Paraná...Você precisa saber que quando se mora na floresta, é impossível ter uma casa no baixo, tem de ser no alto. Daqui se vê o mar de outra maneira. É outro o mundo. Observo os arredores, sinto mais o vento, olho os pássaros, vejo melhor os campos, percebo o tempo melhor. O excesso de normas desfigura o homem e acredito que o artista pode apontar um caminho para esse perigo.
Estado - Que artista o senhor admira; quando o senhor pensa num artista, quem é que lhe vem à mente?
Krajcberg - Henry Matisse. Gosto muito da série das danças. E, especialmente, admiro as colagens. Dizem que quando envelhecemos, somos todos acomodados, que na velhice os artistas começam a se auto-imitar, se alimentando do passado velho. Matisse ensinou que é possível ser diferente. Apesar de não poder mais pintar, ele fez colagens de um colorido vibrante, continuou a se expressar de maneira fascinante.

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