.ENTREVISTA
..Publicada em 26 de setembro 2005

Mercado de redução de gases estufa
Fala Marco Antônio Fujihara, da PricewaterhouseCoopers

Diretor de empresa de consultoria afirma que chance do
Brasil no mercado de carbono está na palavra sustentabilidade

O engenheiro e doutor em economia Marco Antônio Fujihara é um reconhecido conhecedor do mercado de redução de emissões de gases do efeito estufa. Atualmente, responde pela Diretoria de Sustentabilidade da PricewaterhouseCoopers, empresa global de consultoria. Lá, articula projetos de empresas interessadas em aferir receitas e imagem pública favorável com a diminuição de suas emissões.

Marco não é estranho às questões relacionadas à proteção do ambiente: foi diretor do Ibama no período em que José Lutzemberger, um pioneiro do combate à poluição no Brasil, foi o secretário do Meio Ambiente da Presidência da República, no início do curto governo Collor. Também trabalhou na Companhia Vale do Rio Doce, quando presidida pelo engenheiro Eliezer Batista entre 1979 e 1986 — que se preocupou em fazer com que a mineradora respeitasse um padrão de sustentabilidade ambiental.

Na entrevista que concedeu a Mônica Teixeira, Marco dá uma visão geral de como funciona e como se divide esse mercado. Conta também qual acredita ser a melhor maneira para as empresas brasileiras se beneficiarem desse mercado. Entre os projetos que gosta de citar, está um da Sadia: através de um instituto de sustentabilidade, a empresa envolveu os pequenos produtores de porcos que são seus fornecedores num projeto de captação do metano emitido pelos animais, com a instalação de biodigestores e a possibilidade de geração de renda para os suinocultores. Para ele, a chance das empresas brasileiras é agregar valor à mercadoria carbono aliando a idéia do desenvolvimento sustentável a seus projetos. Leia:

Que mercado é esse do qual vamos falar?
É o mercado de redução de gases do efeito estufa de maneira geral — não apenas de redução de carbono, como é comum se dizer. Os gases do efeito estufa são carbono, fluoretos, metano, nitratos... São vários; cada um deles com o seu global warming potential [potencial de aquecimento global], que é a capacidade de dano de cada um deles referida à do gás carbônico.

Que lugar pode ser o do Brasil nesse mercado?
A peculiaridade do Brasil é ser pobre, mas limpinho: não usamos carvão mineral — mais de 90% da energia brasileira são de fontes hidráulicas, de fontes renováveis. Na China, é o inverso. Mais de 90% são de fonte fóssil, especialmente carvão mineral. Por isso, é muito mais simples e imediato reduzir emissões na China do que no Brasil. Precisaremos ser muito mais criativos do que nossos concorrentes, como China, Índia, África do Sul.

A matriz energética mais suja desses outros países, então, é uma vantagem deles em relação a nós?
Trocar uma caldeira de óleo combustível por biomassa na China reduz as emissões; aqui, trocar uma caldeira por outra melhor fará muito pouca diferença, porque a matriz energética já é mais limpa. A oportunidade do Brasil é acrescentar aos projetos o 'chantili' que eles não têm. Por exemplo: incluir o tema biodiversidade em um projeto de redução de emissões do setor siderúrgico. A lógica econômica do empreendimento continua sendo a mesma, mas a biodiversidade funciona como um agregador de valor. A quantidade de carbono não será tão grande quanto em um projeto chinês ou indiano; mas o impacto social do projeto, a incorporação do tema biodiversidade — em suma, a sustentabilidade, é o que dará sofisticação ao produto do Brasil. Vamos competir em qualidade e preço, não em quantidade.

E há comprador para isso?
Sim, até porque há menos risco. Um projeto que equaciona todos os riscos ambientais não vai, amanhã ou depois, ser fechado por um órgão ambiental. O comprador vai se sentir mais tranqüilo em comprar um projeto com menos riscos.

Como se vende um projeto?
Diretamente, de empresa a empresa. Vou dar um exemplo hipotético. Digamos que o Protocolo de Kyoto tenha estabelecido, para a Espanha, um teto de emissões de gases do efeito estufa de 100 toneladas para um determinado período de tempo. Essa permissão para reduzir é chamada no protocolo de carbon allowance. O governo espanhol então diz aos setores econômicos: papel e celulose devem reduzir 20 toneladas; siderurgia, 30; o transporte... Digamos então que uma certa empresa emita mais que o permitido — ela vai pagar ao governo espanhol uma multa de US$ 40 por tonelada. Essa conta e essas multas estão estabelecidas para cada setor econômico da Europa hoje. Uma empresa que vai pagar essa multa, vem ao Brasil e pergunta: quanto custa para reduzir aqui o que deveríamos reduzir lá? Dez euros, digamos. A empresa pensa: gastamos 10 euros no Brasil, não pagamos 40 euros na Espanha. Vale a pena.

Quer dizer que a compra e venda de créditos de carbono não se dá só nas bolsas?
Hoje, é onde menos se dá. Daqui a dez anos, quando houver mais negócios e os riscos forem menores, aí sim as bolsas podem vir a ser preponderantes.

É fato que o Brasil tem 13% do mercado de crédito de carbono?
Tem, e não foi negociado em bolsas, foi negociado empresa a empresa. Hoje, as pessoas não negociam carbono só para cumprir as metas do Protocolo de Kyoto na Europa. Se, além de cumprir o compromisso de Kyoto, puderem divulgar uma boa imagem corporativa relacionada à proteção do meio ambiente e benefício à sociedade, tanto melhor. São valores intangíveis que hoje estão colocados, como a inclusão social, por exemplo.

O senhor sente vigor nesse negócio, no Brasil?
No Brasil estamos discutindo ainda, sem entender que setores econômicos, por exemplo, seriam os melhores para se trabalhar a venda de créditos de carbono. Não há um estudo, um dever de casa mais bem feito, para identificar setores onde já temos vantagens comparativas, que poderiam se transformar em vantagens competitivas através dos mecanismos do protocolo. A pergunta é: "Onde já sou bom e posso ser melhor usando esses mecanismos?" Na Índia, esse trabalho foi feito. O Instituto Tata e o governo indiano fizeram uma espécie de PPP [parceria-público-privada] de carbono — um grupo governamental e privado para discutir onde a Índia é boa e pode se tornar melhor nesse assunto.

Mas o que é ser bom e o que é ser melhor, desse ponto de vista?
Por exemplo, a siderurgia brasileira. Há dois tipos de siderúrgica no Brasil: uma siderúrgica a coque, baseada em carvão mineral, importado; e há uma siderúrgica de carvão vegetal, baseada em estruturação de plantio de eucalipto no interior de Minas Gerais. Essa siderúrgica produz ferro gusa, um intermediário do aço. Nesse caso, já temos uma vantagem comparativa boa, em termos ambientais e sociais. Se fizermos um projeto para que todos usem carvão vegetal, com um planejamento para inclusão social, com manejo no plantio de eucaliptos, transformamos algo no qual somos bons — fazer aço com carvão vegetal — em algo muito melhor, do ponto de vista ambiental, para o planeta. O setor econômico torna-se mais competitivo se usar um redutor energético renovável, como o carvão vegetal, do que se usar carvão mineral, importado da China.

Qual é o lugar do governo?
O Protocolo de Kyoto remete ao governo a discussão dos critérios de sustentabilidade. O problema é que não há ainda critérios muito claros do que é sustentabilidade. No governo, cada ministério acha que é uma coisa. Para tirar esse risco do processo, o que temos feito nos projetos que montamos aqui na Price? Não se comparam mais projetos brasileiros a critérios de sustentabilidade nacionais, mas a critérios globais. Isso eliminou um risco e o preço dos créditos subiu. Menos risco, mais preço. Sustentabilidade agrega valor porque diminui o risco.

Como localizar compradores?
Isso é simples. Há mais compradores do que vendedores hoje, mas eles procuram projetos de qualidade, que não tenham riscos. Estão na Europa, nos Estados Unidos, no Japão.

E quanto vale a tonelada de carbono?
Se o projeto tem o risco diminuído por causa de sua sustentabilidade referida a critérios globais, o preço da tonelada é de 10, 11 euros — contra US$ 5 de projetos sem esse agregador de valor. Por isso, é melhor não ver créditos de carbono como commodities. Não tenho dúvida de que ao longo do tempo os créditos passarão a ser commodities. Se o Brasil tem uma matriz energética que não nos permite competir em pé de igualdade com os outros, então temos de dar valor agregado, para que mesmo vendendo menos, consigamos valor maior.

Em que outros setores o Brasil pode ter uma vantagem, como essa da siderurgia?
Papel e celulose. Temos eucalipto com sete anos aqui — na Finlândia demora 80. Podemos transformar essa vantagem comparativa em competitiva. Outro setor em que podemos ter vantagem é o energético. Várias áreas de energias renováveis podem ser beneficiadas: eólica, solar, mesmo hidráulica.


O senhor afirmou, em seminário do Instituto Fernando Henrique Cardoso, que "o Brasil não vai competir em tecnologias alternativas".
Para sermos competitivos em tecnologia de energias renováveis, precisaríamos de um vetor econômico claramente definido para esse setor. O carbono pode ser um vetor de desenvolvimento tecnológico em energias renováveis.

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