| Mercado
de redução de gases estufa
Fala Marco Antônio Fujihara, da PricewaterhouseCoopers
Diretor de empresa
de consultoria afirma que chance do
Brasil no mercado de carbono está na palavra
sustentabilidade
O engenheiro
e doutor em economia Marco Antônio
Fujihara é um reconhecido conhecedor
do mercado de redução de
emissões de gases do efeito estufa.
Atualmente, responde pela Diretoria de
Sustentabilidade da PricewaterhouseCoopers,
empresa global de consultoria. Lá,
articula projetos de empresas interessadas
em aferir receitas e imagem pública
favorável com a diminuição
de suas emissões.
Marco não
é estranho às questões
relacionadas à proteção
do ambiente: foi diretor do Ibama no período
em que José Lutzemberger, um pioneiro
do combate à poluição
no Brasil, foi o secretário do
Meio Ambiente da Presidência da
República, no início do
curto governo Collor. Também trabalhou
na Companhia Vale do Rio Doce, quando
presidida pelo engenheiro Eliezer Batista
entre 1979 e 1986 — que se preocupou
em fazer com que a mineradora respeitasse
um padrão de sustentabilidade ambiental.
Na entrevista
que concedeu a Mônica
Teixeira, Marco dá uma
visão geral de como funciona e
como se divide esse mercado. Conta também
qual acredita ser a melhor maneira para
as empresas brasileiras se beneficiarem
desse mercado. Entre os projetos que gosta
de citar, está um da Sadia: através
de um instituto de sustentabilidade, a
empresa envolveu os pequenos produtores
de porcos que são seus fornecedores
num projeto de captação
do metano emitido pelos animais, com a
instalação de biodigestores
e a possibilidade de geração
de renda para os suinocultores. Para ele,
a chance das empresas brasileiras é
agregar valor à mercadoria carbono
aliando a idéia do desenvolvimento
sustentável a seus projetos. Leia:
Que mercado
é esse do qual vamos falar?
É o mercado de redução
de gases do efeito estufa de maneira geral
— não apenas de redução
de carbono, como é comum se dizer.
Os gases do efeito estufa são carbono,
fluoretos, metano, nitratos... São
vários; cada um deles com o seu global
warming potential [potencial de aquecimento
global], que é a capacidade de dano
de cada um deles referida à do gás
carbônico.
Que lugar pode
ser o do Brasil nesse mercado?
A peculiaridade do Brasil é ser pobre,
mas limpinho: não usamos carvão
mineral — mais de 90% da energia brasileira
são de fontes hidráulicas,
de fontes renováveis. Na China, é
o inverso. Mais de 90% são de fonte
fóssil, especialmente carvão
mineral. Por isso, é muito mais simples
e imediato reduzir emissões na China
do que no Brasil. Precisaremos ser muito
mais criativos do que nossos concorrentes,
como China, Índia, África
do Sul.
A matriz energética
mais suja desses outros países, então,
é uma vantagem deles em relação
a nós?
Trocar uma caldeira de óleo combustível
por biomassa na China reduz as emissões;
aqui, trocar uma caldeira por outra melhor
fará muito pouca diferença,
porque a matriz energética já
é mais limpa. A oportunidade do Brasil
é acrescentar aos projetos o 'chantili'
que eles não têm. Por exemplo:
incluir o tema biodiversidade em um projeto
de redução de emissões
do setor siderúrgico. A lógica
econômica do empreendimento continua
sendo a mesma, mas a biodiversidade funciona
como um agregador de valor. A quantidade
de carbono não será tão
grande quanto em um projeto chinês
ou indiano; mas o impacto social do projeto,
a incorporação do tema biodiversidade
— em suma, a sustentabilidade, é
o que dará sofisticação
ao produto do Brasil. Vamos competir em
qualidade e preço, não em
quantidade.
E há
comprador para isso?
Sim, até porque há menos risco.
Um projeto que equaciona todos os riscos
ambientais não vai, amanhã
ou depois, ser fechado por um órgão
ambiental. O comprador vai se sentir mais
tranqüilo em comprar um projeto com
menos riscos.
Como se vende
um projeto?
Diretamente, de empresa a empresa. Vou dar
um exemplo hipotético. Digamos que
o Protocolo de Kyoto tenha estabelecido,
para a Espanha, um teto de emissões
de gases do efeito estufa de 100 toneladas
para um determinado período de tempo.
Essa permissão para reduzir é
chamada no protocolo de carbon allowance.
O governo espanhol então diz aos
setores econômicos: papel e celulose
devem reduzir 20 toneladas; siderurgia,
30; o transporte... Digamos então
que uma certa empresa emita mais que o permitido
— ela vai pagar ao governo espanhol
uma multa de US$ 40 por tonelada. Essa conta
e essas multas estão estabelecidas
para cada setor econômico da Europa
hoje. Uma empresa que vai pagar essa multa,
vem ao Brasil e pergunta: quanto custa para
reduzir aqui o que deveríamos reduzir
lá? Dez euros, digamos. A empresa
pensa: gastamos 10 euros no Brasil, não
pagamos 40 euros na Espanha. Vale a pena.
Quer dizer
que a compra e venda de créditos
de carbono não se dá só
nas bolsas?
Hoje, é onde menos se dá.
Daqui a dez anos, quando houver mais negócios
e os riscos forem menores, aí sim
as bolsas podem vir a ser preponderantes.
É fato
que o Brasil tem 13% do mercado de crédito
de carbono?
Tem, e não foi negociado em bolsas,
foi negociado empresa a empresa. Hoje, as
pessoas não negociam carbono só
para cumprir as metas do Protocolo de Kyoto
na Europa. Se, além de cumprir o
compromisso de Kyoto, puderem divulgar uma
boa imagem corporativa relacionada à
proteção do meio ambiente
e benefício à sociedade, tanto
melhor. São valores intangíveis
que hoje estão colocados, como a
inclusão social, por exemplo.
O senhor sente
vigor nesse negócio, no Brasil?
No Brasil estamos discutindo ainda, sem
entender que setores econômicos, por
exemplo, seriam os melhores para se trabalhar
a venda de créditos de carbono. Não
há um estudo, um dever de casa mais
bem feito, para identificar setores onde
já temos vantagens comparativas,
que poderiam se transformar em vantagens
competitivas através dos mecanismos
do protocolo. A pergunta é: "Onde
já sou bom e posso ser melhor usando
esses mecanismos?" Na Índia,
esse trabalho foi feito. O Instituto Tata
e o governo indiano fizeram uma espécie
de PPP [parceria-público-privada]
de carbono — um grupo governamental
e privado para discutir onde a Índia
é boa e pode se tornar melhor nesse
assunto.
Mas o que é
ser bom e o que é ser melhor, desse
ponto de vista?
Por exemplo, a siderurgia brasileira. Há
dois tipos de siderúrgica no Brasil:
uma siderúrgica a coque, baseada
em carvão mineral, importado; e há
uma siderúrgica de carvão
vegetal, baseada em estruturação
de plantio de eucalipto no interior de Minas
Gerais. Essa siderúrgica produz ferro
gusa, um intermediário do aço.
Nesse caso, já temos uma vantagem
comparativa boa, em termos ambientais e
sociais. Se fizermos um projeto para que
todos usem carvão vegetal, com um
planejamento para inclusão social,
com manejo no plantio de eucaliptos, transformamos
algo no qual somos bons — fazer aço
com carvão vegetal — em algo
muito melhor, do ponto de vista ambiental,
para o planeta. O setor econômico
torna-se mais competitivo se usar um redutor
energético renovável, como
o carvão vegetal, do que se usar
carvão mineral, importado da China.
Qual é
o lugar do governo?
O Protocolo de Kyoto remete ao governo a
discussão dos critérios de
sustentabilidade. O problema é que
não há ainda critérios
muito claros do que é sustentabilidade.
No governo, cada ministério acha
que é uma coisa. Para tirar esse
risco do processo, o que temos feito nos
projetos que montamos aqui na Price? Não
se comparam mais projetos brasileiros a
critérios de sustentabilidade nacionais,
mas a critérios globais. Isso eliminou
um risco e o preço dos créditos
subiu. Menos risco, mais preço. Sustentabilidade
agrega valor porque diminui o risco.
Como localizar
compradores?
Isso é simples. Há mais compradores
do que vendedores hoje, mas eles procuram
projetos de qualidade, que não tenham
riscos. Estão na Europa, nos Estados
Unidos, no Japão.
E quanto vale
a tonelada de carbono?
Se o projeto tem o risco diminuído
por causa de sua sustentabilidade referida
a critérios globais, o preço
da tonelada é de 10, 11 euros —
contra US$ 5 de projetos sem esse agregador
de valor. Por isso, é melhor não
ver créditos de carbono como commodities.
Não tenho dúvida de que ao
longo do tempo os créditos passarão
a ser commodities. Se o Brasil
tem uma matriz energética que não
nos permite competir em pé de igualdade
com os outros, então temos de dar
valor agregado, para que mesmo vendendo
menos, consigamos valor maior.
Em que outros
setores o Brasil pode ter uma vantagem,
como essa da siderurgia?
Papel e celulose. Temos eucalipto com sete
anos aqui — na Finlândia demora
80. Podemos transformar essa vantagem comparativa
em competitiva. Outro setor em que podemos
ter vantagem é o energético.
Várias áreas de energias renováveis
podem ser beneficiadas: eólica, solar,
mesmo hidráulica.
O senhor afirmou, em seminário
do Instituto Fernando Henrique Cardoso,
que "o Brasil não vai competir
em tecnologias alternativas".
Para sermos competitivos em tecnologia de
energias renováveis, precisaríamos
de um vetor econômico claramente definido
para esse setor. O carbono pode ser um vetor
de desenvolvimento tecnológico em
energias renováveis.
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