As informações que chegaram até nós sobre a fauna e flora brasileiras, desde a descoberta até o final do século XX, foram coletadas principalmente pelos viajantes estrangeiros que aqui estiveram, como, por exemplo: Richard Burton, o príncipe Maximiliano, Langsdorff, Spix e Martius. Até a chegada da Família Real, em 1808, os portugueses procuraram manter os recursos da natureza brasileira em segredo para evitar os saques de comerciantes europeus. Mesmo assim, todo o cuidado não evitou que traficantes, piratas e corsários franceses e ingleses invadissem ocasionalmente as terras brasileiras. A intransigência portuguesa impediu até que os cientistas que acompanhavam James Cook (o navegador que empreendeu uma viagem ao redor do mundo) desembarcassem no Rio de Janeiro, quando Cook aportou para reabastecimento (os portugueses só permitiam que as expedições de circunavegação ancorassem nos portos brasileiros para abastecer e nada mais!). E não só isso: em 1800, as autoridades portuguesas impediram também a entrada daquele que é considerado o maior de todos os sábios naturalistas, o barão Alexander von Humboldt. E assim por diante... Entretanto, com a chegada da Família Real Portuguesa, os portos foram abertos – com isso, levas e levas de sábios, cientistas e naturalistas passaram a estudar a fauna e a flora do Brasil, publicando numerosos trabalhos na Europa. Um dos mais notáveis viajantes dessa época foi o inglês Richard Francis Burton, tradutor das "Mil e Uma Noites" e do "Kama-Sutra", descobridor da nascente do rio Nilo e o primeiro ocidental a entrar em Meca. Burton foi cônsul britânico em Santos (SP) e redigiu dois livros sobre o Brasil, um deles perdido para sempre. Era costume dos viajantes-pesquisadores trazer consigo artistas que retratassem as plantas, flores, árvores, animais e também os índios – dessa forma, um rico material foi produzido, dando uma idéia da riqueza da natureza brasileira de então. Nessa época, esteve também no Brasil, Charles Darwin – no dia 27 de dezembro de 1830, Darwin partiu da Inglaterra, no navio Beagle, para uma viagem de cinco anos ao redor do mundo. Darwin, que iria mudar os rumos da ciência, esteve duas vezes no Brasil, na ida e na volta da viagem: no arquipélago de Fernando Noronha, em Salvador, no arquipélago de Abrolhos e no Rio. No seu diário, Darwin, desembarcando na Bahia, escreveu: "O dia passou-se deliciosamente. Mas ‘delícia’ é termo insuficiente para exprimir as emoções sentidas por um naturalista que, pela primeira vez, se viu a sós com a natureza no seio de uma floresta brasileira. A elegância da relva, a novidade dos parasitas, a beleza das flores, o verde luzidio das ramagens e, acima de tudo, a exuberância da vegetação em geral, foram para mim motivos para uma contemplação maravilhada. Jamais poderei experimentar tanto prazer". Mas a primeira expedição realmente científica ao Brasil foi feita pelo príncipe alemão Maximilian von Wied, que esteve no Brasil de junho de 1815 a maio de 1817. Maximiliano, como é mais conhecido por nós, escreveu um livro, publicado em dois volumes, chamado "Viagem ao Brasil nos anos de 1815 a 1817", no qual reúne informações sobre botânica, ornitologia (estudo dos pássaros) e sobre os índios. Os estudos que realizou sobre os índios puris, botocudos e pataxós foram muito importantes. Maximiliano até mesmo levou um índio botocudo para a Europa: era o índio Quack. A primeira esposa de D. Pedro I, a imperatriz austríaca Leopoldina, também foi grande incentivadora das pesquisas científicas: quando casou, em 1817, trouxe consigo da Áustria um grupo de 15 cientistas – entre eles o zoólogo Johann Baptist von Spix e o botânico Carl Friedrich Phillip von Martius. Spix e Martius andaram pelo interior do Brasil e coletaram tanto material botânico, zoológico e etnográfico, que ambos morreram e não conseguiram terminar a catalogação. Com a morte de Spix, Martius prosseguiu o trabalho de classificar e desenhar os exemplares da fauna brasileira, numa coleção de 15 volumes chamada "Flora Brasiliensis": 20 773 páginas, 3 811 gravuras e 8000 espécies de plantas. Além da "Flora Brasiliensis", Spix e Martius escreveram os três volumes da "Viagem ao Brasil" e um estudo inacabado sobre a fauna brasileira, em que se destacam os primatas. Mas as expedições resultavam também tragédias: o barão Langsdorff, por exemplo, partiu para uma viagem pelo interior do Brasil em 1825, com 34 homens. Percorreram 16 000 quilômetros, coletaram 100 mil amostras de plantas e viajaram durante 2 anos... mas, essa viagem foi marcada por doenças, febres, suicídio, paixões, lutas e delírios! Em abril de 1828, Langsdorff enlouqueceu e dos 34 homens, somente 12 retornaram da viagem. O material recolhido por Langsdorff e seus companheiros ficou durante muito tempo "jogado" nos porões do museu de São Petersburgo, na Rússia – pois fora o czar Alexandre I da Rússia quem financiara a expedição. Muitos consideram que foi o francês Augustin de Saint-Hilaire o maior estudioso do Brasil no século XIX – não tanto pelos seus estudos da flora (que são grandiosos), mas por suas observações a respeito dos costumes dos brasileiros e do "progresso": a devastação das florestas, a matança dos índios, os negociantes que enriqueciam sendo desonestos... Saint-Hilaire nasceu em Orleans, na França, e mudou-se para a Alemanha durante a Revolução de 1789. Na Alemanha, conheceu um amigo de Humboldt (outro grande pesquisador) e, convencido por esse amigo, juntou-se à missão francesa que veio ao Brasil com o duque de Luxemburgo, em abril de 1816, para pesquisar a fauna e a flora brasileiras - (vide mapa da viagem de Saint-Hilaire) Saint-Hilaire percorreu mais de 12.000 quilômetros a pé, em lombos de mula, ou em canoas, coletando plantas e observando a natureza e as sociedades que se formavam. Ele levou 10 anos para publicar a sua obra "Flora Brasiliae Meridionalis". Em 1821, Saint-Hilaire foi envenenado pelo mel da abelha lechiguana e os sintomas da doença o acompanharam pelo resto da vida até sua morte, em 1853.
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