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Por
George de Souza Mustafá, Luis
Henrique Piva, Sean
Patrick Bradley,
Sérgio
de Mattos Fonseca, Wilton Oliveira Arruda*
PARTE I
CONTEXTO
Dentro
do contexto do Protocolo de Quioto, os países membros concordam em
reduzir tanto as emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) quanto o tamanho dos estoques atmosféricos destes gases. O principal foco destas
reduções fica com os países desenvolvidos listados no ANEXO 1 da Convenção
– Quadro das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas, que terão
que reduzir emissões em vários pontos de suas matrizes energéticas, nos
sistemas industriais, florestais, agrícolas e urbanos. Com a introdução
do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) será possível a implantação
de projetos específicos visando realizar essas reduções nos países em
desenvolvimento. Com isso em mente, este artigo pretende apresentar uma metodologia que facilita a identificação de técnicas de minimização e
seqüestro de carbono.
O
protocolo de Quioto e em particular o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo têm
objetivos múltiplos que incluem conceitos de equidade e desenvolvimento
sustentável para que o acordo seja realizado num contexto de melhoria na
qualidade de vida para todos os povos. No entanto, a meta geral numa visão
técnica pode ser descrita como o estabelecimento de um sistema biogeoquímico
no qual os Gases de Efeito Estufa estejam em um equilíbrio dinâmico que
não ameace a sustentabilidade dos sistemas sociais e ambientais do
planeta. Em apoio a esta meta básica é noção de que somos capazes de
modificar a quantidade de GEE na atmosfera através de diferentes técnicas,
processos e procedimentos. O problema, em escala global, é de modificar
os fluxos de carbono entre os vários estoques mundiais de forma a
transferir carbono (e outros GEEs) do estoque atmosférico para outros estoques como o oceânico e biológico restabelecendo um equilíbrio aceitável.
Os
estoques mundiais de carbono são apresentados na seguinte figura:
|
 |
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Figura
01: Principais Estoques de Carbono e Fluxos Anuais entre os
Compartimentos (valores em Giga-toneladas = 1015g) |
Nesta
figura observa-se que os estoques de carbono nos reservatórios petrolíferos
e oceânicos representam os mais significativos para a manutenção do
equilíbrio dinâmico global. Os estoques petrolíferos são importantes
por que representam “transferências” feitas em épocas remotas que
estão rapidamente sendo desfeitos por ação antrópica. Os oceanos tem
sido o grande sistema de captação de carbono mas as taxas de captação
são mais compatíveis com tempos geológicos e não acompanham as mudanças
rápidas provocadas pelos homens.
MINIMIZAÇÃO
E SEQUESTRO
Frente
a este quadro de mudança nos fluxos mundiais, é fácil identificar a
necessidade de reformular os sistemas industriais, urbanos e até
ambientais de forma a contribuir para reverter o processo de acumulo de
GEE na atmosfera. Neste sentido, existem, basicamente, duas estratégias
para alterar os fluxos no ciclo de carbono. Primeiro podemos modificar os
sistemas para evitar emissões de carbono (carbon
emission avoidance), ou seja, mudar tecnologias e procedimentos de
forma a reduzir ou até eliminar as emissões de carbono sem deixar de
suprir demandas. A segunda estratégia é a captação ou “seqüestro”
de carbono já em estado gasoso que está sendo emitido para atmosfera ou
que já se incorporou a esta. O seqüestro envolve, então, a transferência
deste gás carbônico para um outro estoque qualquer.
Como
estamos lidando com gases de permanências elevadas não vai ser o
suficiente começar a minimizar emissões daqui por diante. Para
estabelecer um novo equilíbrio que seja sustentável, será necessário
utilizar ambas as técnicas de minimização e de seqüestro.
METODOLOGIA
DAS TECNOLOGIAS LIMPAS
Para
identificar e desenvolver técnicas apropriadas para efetivar estas mudanças
nos fluxos de carbono é essencial buscar um entendimento mais específico
sobre a diferença entre métodos associados com minimização e aqueles
associados com seqüestro. De início, podemos declarar que há mais benefícios
ambientais com técnicas de minimização. Apoiando-se em metodologias
desenvolvidas dentro do âmbito de tecnologias limpas é possível
entender minimização e seqüestro como dois pólos no qual a minimização
apresenta melhores resultados em termos de eficiências materiais e energéticas
porque elimina etapas posteriores de mitigação e remediação. Ou seja,
evitar a emissão implica evitar gastos associados com seqüestro.
Em
sistemas industriais, técnicas que visam a remoção ou tratamento de resíduos
somente no fim do processo são chamados de soluções “fim de tubo”,
e apesar de ainda ser uma parte importante dos processos industriais são
atualmente reconhecidos como soluções ineficientes e geradoras de muitos
impactos ambientais. Soluções focalizadas no “fim de tubo”
representam o pior caso numa seqüência de técnicas que visam reduzir
desperdício e minimizar impactos ambientais. Tecnologias limpas visam
aproximar cada vez mais sistemas de emissão zero segundo a seguinte
hierarquia:
|
ETAPAS
– TECNOLOGIAS LIMPAS
|
|
Alteração
do produto
|
|
Alteração
do Processo
|
|
Otimização
de Processo
|
|
Melhorias
Operacionais
|
|
Reutilização
|
|
Tratamento
|
|
Disposição
|
Figura
02
Trazendo
esta metodologia para o contexto de mudanças climáticas é possível
aplicá-la a outros sistemas desenvolvendo uma hierarquia mais genérica
porém paralela a das tecnologias limpas (Figura 03).
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ETAPAS
– TECNOLOGIAS LIMPAS
|
ETAPAS
- OUTROS SISTEMAS
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Alteração
do produto
|
Evitar
Problema
|
|
Alteração
do Processo
|
Gerenciamento
Manejo
Planejamento
|
|
Otimização
de Processo
|
|
Melhorias
Operacionais
|
|
Reutilização
|
Mitigação
|
|
Tratamento
|
Remediação
|
|
Disposição
|
Sistema
fora de Controle
|
Figura
03
EVITAR O
PROBLEMA
Em
cada um dos sistemas responsáveis para a geração de GEE podemos através
desta metodologia identificar técnicas e medidas que tendam mais para
minimização (evitar problema, ou manejo etc.) ou mais para seqüestro
(mitigação, remediação). As melhores técnicas no topo da hierarquia
evitam a geração de carbono e outros GEEs. Normalmente isto envolve
mudanças radicais em tecnologia ou alterações em padrões de
comportamento e/ou demandas.
GERENCIAMENTO
/ MANEJO / PLANEJAMENTO
O
segundo nível de consideração em sistemas industriais está subdivido
em três etapas: alteração do processo, otimização de processo, e
melhorias operacionais tem paralelo em outros sistemas através de uma
ampla gama de técnicas de gerenciamento, manejo e planejamento que
modificam estes sistemas reduzindo as emissões. A distinção entre as
modificações tecnológicas focalizadas em equipamentos e aquelas que
visam a melhora do capital humano são menos aparentes em sistemas urbanos
e florestais e por isso serão objeto de estudos posteriores.
MITIGAÇÃO
E REMEDIAÇÃO
Quando
se fala de técnicas de mitigação e de remediação no fundo trata-se de
técnicas de seqüestro. Então isto representa a divisa entre técnicas
que evitam a geração de GEEs e técnicas corretivas que visam a remoção
de substâncias já geradas. Técnicas de mitigação normalmente visam
transferência do problema de um lugar para um outro considerado menos
danoso enquanto técnicas de remediação visam a redução do impacto do
problema freqüentemente sem realmente solucioná-lo.
SISTEMA
FORA DE CONTROLE
O
equivalente à disposição industrial em outros sistemas é um sistema
fora de controle. Às vezes, isto pode envolver tentativas fracas a
medidas corretivas, mas são sempre limitadas em escopo nunca abordando o
problema de forma sistêmica.
Portanto,
com esta estrutura conceitual seremos capazes de identificar e priorizar
entre vários sistemas as técnicas que podem ser utilizadas para reduzir
o efeito estufa. Serão apresentados a seguinte vários exemplos de técnicas
em diferentes sistemas responsáveis para gases de efeito estufa. Os
sistemas apresentados (industrial, florestal, agrícola e urbano) poderiam
ter outras divisões, tratando, por exemplo, as questões energéticas
separadas das industriais ou tratando resíduos sólidos fora do contexto
urbano mas o intuito principal é de ilustrar a gama de técnicas possíveis
e como elas podem ser avaliadas em termos holísticos visando aumentar
benefícios ambientais gerais.
SISTEMAS
INDUSTRIAIS
Os
processos industriais que geram emissões atmosféricas e as respectivas
concentrações médias de dióxido de carbono (CO2) nestas emissões são
apresentados na tabela abaixo.
Como
pode ser observado, a maioria desses processos descarrega as emissões
diretamente na atmosfera. Em alguns casos, principalmente devido à alta
concentração, o CO2 é normalmente comercializado ou aproveitado pelo próprio
processo.
|
Processos
|
Produtos
|
CO2
(%
v)
|
Destino
|
|
Combustão
|
Gás
natural
|
8
– 9
|
Atmosfera
|
|
Óleo
combustível
|
12
– 13
|
Atmosfera
|
|
Biomassa
|
15
– 18
|
Atmosfera
|
|
Calcinação
do calcário
|
Cimento
|
25
- 32
|
Atmosfera
|
|
Cal
|
>
99
|
Atmosfera
|
|
Siderúrgico
|
Ferro-liga
|
15
- 30
|
Atmosfera
|
|
Reforma
de gás natural
|
Fertilizantes
|
60
- 70
|
Comercialização
|
|
Hidrogênio
|
>
99
|
Comercialização
|
|
Fermentação
aeróbia
|
Álcool
e açúcar
|
>
99
|
Atmosfera
|
|
Bebidas
|
>
99
|
Comercialização
|
|
Petroquímico
|
Óxido
de eteno
|
65
- 70
|
Comercialização
|
|
Carbonatos
|
Barrilha
|
>
99
|
Comercialização
|
Com
relação a quantidade de CO2 gerada, os três principais
processos em ordem decrescente são: combustão de gás natural, cimento e
ferro-liga. Portanto, apesar da combustão de gás natural apresentar a
menor concentração de CO2 nas emissões gasosas (8 – 9 %v),
é o processo industrial que gera maior volume de emissões para a
atmosfera.
Técnicas
para eliminar ou minimizar a geração de carbono e técnica para seqüestrar
carbono no processo de combustão:
|
SISTEMA
INDUSTRIAL
|
|
ETAPA
|
TÉCNICA
|
|
Substituição
do produto
|
Substituir
combustíveis fósseis por fontes alternativas de energia.
|
|
Substituir
combustíveis fósseis por biomassa renovável.
|
|
Substituir
óleo combustível por gás natural.
|
|
Substituição
do processo
|
Avaliar
a substituição do uso de energia química de combustíveis por
energia elétrica (hidrelétrica).
|
|
Implementar
a cogeração de eletricidade.
|
|
Otimização
do processo
|
Aumentar
a eficiência energética de caldeiras, fornos, motores e outros
equipamentos que geram ou consomem energia.
|
|
Otimizar
energeticamente os processos produtivos.
|
|
Melhorias
operacionais
|
Revisar
os procedimentos operacionais dos equipamentos que geram ou
consomem energia.
|
|
Reutilização
|
Injetar
no subsolo (poços de petróleo etc.).
|
|
Reutilizar
como matéria-prima para a indústria.
|
|
Armazenar
em minas desativadas.
|
|
Tratamento
|
Absorver
quimicamente em solventes seletivos.
|
|
Adsorver
em adsorventes seletivos.
|
|
Disposição
|
Descarregar
na atmosfera.
|
Técnicas
para eliminar ou minimizar a geração de carbono e técnica para seqüestrar
carbono no processo de produção de cimento:
|
SISTEMA
INDUSTRIAL
|
|
ETAPA
|
TÉCNICA
|
|
Substituição
do produto
|
Pesquisar
outras ligas que não gerem CO2 na sua fabricação.
|
|
Substituir
combustíveis fósseis por fontes alternativas de energia.
|
|
Substituir
combustíveis fósseis por biomassa renovável.
|
|
Substituir
óleo combustível por gás natural.
|
|
Substituição
do processo
|
Pesquisar
minérios não carbonatados para produção de CaO.
|
|
Avaliar
a substituição do uso de energia química de combustíveis por
energia elétrica (hidrelétrica).
|
|
Implementar
a cogeração de eletricidade.
|
|
Otimização
do processo
|
Aumentar
a eficiência energética de caldeiras, fornos, motores e outros
equipamentos que geram ou consomem energia.
|
|
Otimizar
energeticamente os processos produtivos.
|
|
Melhorias
operacionais
|
Revisar
os procedimentos operacionais dos equipamentos que geram ou
consomem energia.
|
|
Reutilização
|
Injetar
no subsolo (poços de petróleo etc.).
|
|
Reutilizar
como matéria-prima para a indústria.
|
|
Armazenar
em minas desativadas.
|
|
Tratamento
|
Absorver
quimicamente em solventes seletivos.
|
|
Adsorver
em adsorventes seletivos.
|
|
Disposição
|
Descarregar
na atmosfera.
|
Técnicas
para eliminar ou minimizar a geração de carbono e técnica para seqüestrar
carbono no processo de combustão:
|
SISTEMA
INDUSTRIAL
|
|
ETAPA
|
TÉCNICA
|
|
Substituição
do produto
|
| |