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Terça-feira, 10 de abril de 2001
Troncos que viram belos e terríveis poemas visuais
É um dos raros artistas que ainda tentam refletir e melhorar o mundo a sua volta 

 
Divulgação
Obras do artista estão espalhadas pelo mundo

MARIA HIRSZMAN

Hoje em dia é raro encontrar artistas sincronizados com seu tempo, que pretendam usar sua arte não apenas como mera especulação formal ou exercício estético, mas como uma maneira de refletir e mudar o mundo em que vive. Um desses artistas é Frans Krajcberg, que radicalizou de tal forma seu desejo de marcar uma posição em defesa da natureza - talvez uma das maiores causas dessa nossa época - que, com sua atitude militante e seu discurso inflamado, procura passar a impressão de que sua luta ecológica está acima de sua produção artística.

Na verdade, é exatamente a profunda interligação entre o discurso plástico e a militância política que fazem de Krajcberg um artista íntegro, capaz de compor uma reflexão ao mesmo tempo estética e conceitual com seus troncos calcinados, restos de floresta, transformando-os em belos e terríveis poemas visuais, que tem muito mais de Brasil do poderia indicar a sua biografia. Afinal, Krajcberg nasceu na Polônia, teve sua vida profundamente marcada pelo anti-semitismo e pela guerra (sua família foi dizimada pelos nazistas e ele próprio viu de perto os horrores da guerra ao engajar-se ao lado das tropas russas).

Foi em Paris no pós-guerra que deu início às atividades artísticas, entrando em contato com o que havia de mais vanguardista no momento. Ele jamais abandonou Paris - onde ainda possui um ateliê, que será doado à prefeitura e transformado num museu sobre sua obra -, mas acabou resolvendo tentar a sorte aqui no Brasil - com uma passagem doada pelo amigo Marc Chagall.

No início foram muitas as dificuldades. Trabalhou como pedreiro, vigia, auxiliar de pintor (no caso, Volpi), até ser descoberto por Cicillo Mattarazzo e convidado a participar da 1ª Bienal de São Paulo, em 1951. Figura que sempre gostou do isolamento, Krajcberg viveu em vários lugares do Brasil: São Paulo, Paraná, Minas Gerais (onde se encantou de tal maneira com a paisagem e a natureza que diz ter dançado e chorado ao deparar-se com as montanhas).

Mas foi em Nova Viçosa, no sul da Bahia, e nas diversas viagens que fez à Amazônia que foi sendo depurado o olhar atento e crítico de Krajcberg. Foi lá que nasceram suas enormes esculturas, construídas com restos de troncos que encontra nos ameaçados mangues e as fotografias que registram a beleza da natureza e o horror da destruição que encantaram os franceses na impactante retrospectiva Moment d'Ailleurs, que fez em Paris em 1996, e que lhe valeram, entre outros reconhecimentos de crítica e público, o Prêmio Multicultural Estadão, em 1998.

 
Veja o Manifesto do Rio Negro (em francês) e outras páginas sobre o ser humano Krajcberg:
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